domingo, 8 de março de 2026

sobre antónio variações ou mãos abertas em lisboa

frágil era o bar que antónio variações frequentava

no bairro alto quando o cais do sodré ainda não

era tudo isso que hoje em dia dizem logo quando

se chega a lisboa

 

frágeis eram as canções que variações cantava

no bairro alto e que se desfaziam até outros bares

e armazéns de portas fechadas no cais do sodré

na antiga lisboa

 

fragilidades cantadas ao alto no bairro que se amava

antes de se perderem pelo cais do sodré como ainda

fazem os estrangeiros que à noite vagam sem rumo

na atual lisboa

 

fragilmente antónio gritou a distância que levava

no olhar quando cantou sempre ausente e na

linha-vida falou em vidências que o guiavam a

viver em lisboa

 

frágil fragilidade fragilmente

adjetivo substantivo advérbio

 

aprendi que frágil flexiona como ágil quando estudava

português antes mesmo de pensar em atravessar a

noite portuguesa pelas ruelas e pessoas que variações

andou por lisboa

 

mas antónio era ágil e forte e poeticamente marcava

corações com a sua coragem irreverente e sincera

como em canção de engate quando assumiu ter as

mãos abertas em lisboa

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

eu desarmaria o amor a vida toda por você

dessas coisas que morrem nos inícios de ano

desfalecem as inércias e renascem as urgências

passam os pequenos medos e se agigantam as ideias

aquelas de “quem poderemos ser” e “aonde vamos chegar”

acabam os sonos da tarde e os receios de dormir no mar

desejos antigos parecem recém concebidos e surgem maiores

amplos como maré de sizígia em tempo de lua nova ou cheia

e tudo fluido marcando o tanto de vida que ainda contamos de ter

mas desses pensamentos que em um susto crescem por agora

por que não reparar na ideia de “quem deixaremos de ser”

ou naquela outra de “até quando poderemos aguentar”

se há muito fazemos o mesmo como se novo fosse

e como se não estivéssemos a recontar

 

às vezes o certo é sentir e seguir

em outras devemos parar e pensar

já que novamente estamos em janeiro

 

e dessas coisas que morrem nos inícios de ano

desfalecem as inércias e renascem as urgências

que agora pela primeira vez já não são as mesmas

são novas como tudo isso que há um ano mora inteiro em mim

desde a influência desse amor que por sorte recebi

a ponto de ouvir “eu sentia que a liz estava conseguindo

te fazer viver mais” e “ela conseguia te desligar do trabalho”

e é sobre essas coisas que estou a escrever

dessas que morrem nos inícios de ano

quando desfalecem inércias e renascem urgências

diferentes daquelas de outrora e mais cheias de si

pulsando segundo a segundo e próprias de sentimento

distantes de corporação e mais próximas da vida

dessa que os poetas escrevem e nos fazem crer

que nada valeria mais do que o amor

já que amar desarma a luta

 

mas o que fazer quando as lutas se dão de dentro para fora?

não sabia responder

até encontrar um pouco de vida no caminho

30°01'53.4"S 51°12'34.3"W

 

(eu voltaria às mesmas coordenadas para sempre

e desarmaria o amor a vida toda por você)