Nos últimos dias tenho tentado falar com você, mas não consigo. Meu orgulho é meu dilema, minha dor é a sua ausência e a solidão apenas uma companheira. Ela me disse que o verão seria longo e que as tardes ensolaradas somente esquentariam minhas mãos geladas. Odeio o sol. Você amava calor, praia e bossa nova. Eu amava rock’n’roll, chuvas prateadas e você. Escrevi dezessete textos desde o último dia que nos falamos, apaguei todos. Ouvi nossa música tantas vezes, ao passo que lia e relia Fernando Pessoa... Apenas uma tentativa furada em tentar lembrar e esquecer você ao mesmo tempo. Hoje não passo de um magricelo, pálido e despojado, que gasta suas únicas horas livres em porres e lágrimas, por sentir tanto a sua falta. Você tocava minha alma, beijava meu corpo e sussurrava ao pé do meu ouvido palavras doces, palavras sujas, frases quentes e às vezes melancólicas. Você dizia que me amava, eu retribuía com juras de amor eterno. Estou ficando lunático, olho ao redor, não vejo nada, olho de novo, vejo você, vejo estrelas douradas que me deixam cego por alguns segundos, não durmo. Acordo cansado, eu sonhei com você todas as noites, grito, choro por mais uma hora. Sim, aceito o fim. Não, eu não aceito. Meu humor varia diversas vezes ao dia. A saudade não cessa. Me pus a ler horóscopo para tentar achar uma explicação. Paraíso astral. Não. Não tem explicação, você mesma disse. Simplesmente precisa de novas experiências. Como posso viver sem você? Sempre fui um tolo, metido à intelectual, entendo de música, literatura, vinhos e domino a gramática. Era isso que você gostava em mim, sempre me disse. Então por que fugir pelos becos sujos, com um bêbado que chama você de “gatinha”, e usa sempre a mesma camiseta desbotada de um time de futebol? Não entendo. Não sei quais são as novas experiências que deseja, talvez precise sofrer, aprender, morrer e nascer várias vezes ao ano, para conseguir entender que ao meu lado é o seu lugar. Nós nos somamos, aprendemos um com o outro. Eu lhe ensinei o português, você me ensinou o amor; existe melhor soma do que essa? Não. Você voltará. Eu estarei observando as folhas caírem.
terça-feira, 22 de março de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Dois
Era magro. Tinha mãos macias e dedos compridos, um sorriso delicado, com dentes perfeitos. Eu observava durante horas os seus lábios rosados, pequenos e úmidos. Ele dormia como criança, algumas vezes movia a cabeça de um lado para o outro, mas permanecia daquele jeito, um pouco virado para a esquerda, com o joelho direito levemente dobrado. Quando acordava, abria os olhos com muita calma, mexia nos cabelos escuros, fazendo com que os seus cachos balançassem como se estivessem dançando mambo. Aos sábados à tarde era quando ele lia Gabriel García Márquez, devorava durante horas a fio alguma obra do autor. Depois levantava e vinha acariciar meus cabelos, minha nuca, beijava minhas costas, descia pelo ombro até chegar nas pontinhas dos meus dedos, onde eu podia sentir com mais intensidade a umidade dos seus lábios sempre corados. Era gelado. Possuía braços magros e brancos, como algodão, os seus olhos eram cor de mel, com lindas pestanas compridas e as sobrancelhas, não há como descrever, com um desenho único, belas, grossas e escuras, que reforçavam a profundidade do seu olhar. Um olhar único. Todos os dias eu me apaixonava por ele, todas as noites eu sonhava com ele. Conversávamos sobre vários assuntos, dávamos risadas até lágrimas saírem dos nossos olhos, nos amávamos com muita intensidade, eu descansava em seu colo, tomávamos chocolate quente com bolachas de polvilho, que eram as suas preferidas, ouvíamos Oasis, assistíamos algum filme francês e depois tentávamos imitar os atores principais. De madrugada, quando o sono não vinha, assistíamos Peanuts, ele dizia que eu era parecida com a Lucy van Pelt, eu o chamava de "Minduim", ele queria ser o Linus. Nós éramos amigos, melhores amigos, nós éramos namorados. Nos entendíamos só pelo olhar, se eu estava entediada, ele tentava me animar, quando me sentia sozinha, ele me abraçava durante longos minutos. Nos perdemos. Não sei explicar o porquê. Mas nos perdemos, apenas isso. Talvez porque fossemos jovens demais ou porque tínhamos outro objetivos. Foi em uma tarde de julho, ele estava indo estudar na capital, em setembro eu iria morar na Argentina. Possuíamos muitas coisas em comum, mas não conseguíamos ter os mesmos planos para o futuro. A distância não o tirou do meu coração, nem fez com que eu esquecesse tudo o que vivemos juntos, toda a simplicidade que fazia parte da nossa rotina, o carinho que sentíamos um pelo outro. Nada foi apagado da minha memória. Apenas nos perdemos... Mas isso não quer dizer que, talvez um dia, não nos encontremos de novo, com novas experiências e, assim, possamos fazer planos para o futuro. Um futuro a dois.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
E os valores?!
Nasci, cresci e formulei minha própria personalidade. Faço parte de uma sociedade que se preocupa em ter, aparecer e humilhar. Pessoas arrogantes que se consideram inteligentes, mas não sabem o verdadeiro significado da palavra virtude. Deparei-me, há alguns dias, com uma cena de novela mexicana, um mero “showzinho”, um troglodita, que resolveu fazer palco, após ouvir aquilo que precisava, mas ninguém teria dito anteriormente.
Certamente que ele não entenderia, pois possui um espírito imundo, envolvido nas piores podridões da atualidade. Jamais pensei em ofender ou dizer algo que o deixasse frustrado, porém não pude aceitar uma situação em que um ignorante, sem classe, sem compostura e sem educação, que no lugar do cérebro possui esterco, abusasse da boa fé, da integridade e humildade de outrem.
Depois da belíssima encenação (que merece levar o “framboesa” para casa) entrei em colapso de risos. Como seria capaz um homem de quase trinta anos possuir uma infantilidade absurda? Insanidade... E o mais engraçado é que possui platéia que o aplaude e não toma nenhuma atitude. Muito bem, deixemos a alucinação tomar conta desse indivíduo, apoiaremos mais algumas crises existenciais e, quando ele ferir cruelmente a sociedade, o mandaremos para algum hospício.
Diante disso, e tudo mais que presenciei, fico questionando-me onde está a hombridade? Onde foram parar os valores humanos? Como aceitamos que depravados assassinem a nossa Constituição e continuem impunes? Nos resta acreditar que, cedo ou tarde, eles mesmos se suicidarão. E que "Deus" sempre é justo. Mas de certa forma, estarei aqui, como boa estudante de Direito, tentando corrigir de uma forma educada e justa, baseada em diálogo, os maus atos alheios que ocorrerem diante aos meus olhos.
Certamente que ele não entenderia, pois possui um espírito imundo, envolvido nas piores podridões da atualidade. Jamais pensei em ofender ou dizer algo que o deixasse frustrado, porém não pude aceitar uma situação em que um ignorante, sem classe, sem compostura e sem educação, que no lugar do cérebro possui esterco, abusasse da boa fé, da integridade e humildade de outrem.
Depois da belíssima encenação (que merece levar o “framboesa” para casa) entrei em colapso de risos. Como seria capaz um homem de quase trinta anos possuir uma infantilidade absurda? Insanidade... E o mais engraçado é que possui platéia que o aplaude e não toma nenhuma atitude. Muito bem, deixemos a alucinação tomar conta desse indivíduo, apoiaremos mais algumas crises existenciais e, quando ele ferir cruelmente a sociedade, o mandaremos para algum hospício.
Diante disso, e tudo mais que presenciei, fico questionando-me onde está a hombridade? Onde foram parar os valores humanos? Como aceitamos que depravados assassinem a nossa Constituição e continuem impunes? Nos resta acreditar que, cedo ou tarde, eles mesmos se suicidarão. E que "Deus" sempre é justo. Mas de certa forma, estarei aqui, como boa estudante de Direito, tentando corrigir de uma forma educada e justa, baseada em diálogo, os maus atos alheios que ocorrerem diante aos meus olhos.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Não coma capim
Inferioridade é uma derrota da alma; inferiorizar-se é a perda das perdas.
Mas como esperar o contrário se vivemos em um mundo em que homens de grande capacidade econômica cospem nas cabeças de uma população pobre e inferior, porém rica de espírito e fé.
Para onde irá toda a riqueza que possui hoje? Ensine o seu filho a ter respeito e humildade; isso é a base da boa educação; a força da alma. Tenha gentileza.
Acredite na sublime ordem superior, pois esse Universo, do qual você faz parte, é de tamanha subjetividade que seria impossível descrever a magia que o envolve.
Ninguém sabe o que há depois da morte;
Morte terrena.
Não levante a sua cabeça ao passar ao lado de pessoas de classes diferentes, elas, assim como você, realizam as mesmas necessidades fisiológicas.
Não seja ignorante, tenha capacidade de debater, não critique a opinião do outro, ela só não vale mais do que a sua. Não coma capim.
Se a arrogância faz parte do seu estado de espírito, desista de acreditar que o seu caminho de poder irá longe.
Você não é obrigado a lavar a bunda de políticos corruptos, mas pode escolher se quer beijar as mãos de homens poderosos.
Sentiria náuseas;
Faço parte de uma sociedade fajuta em que sair em colunas sociais é mais importante do que ler um livro... Santa ignorância.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
O chá já está esfriando
Quanto desperdício de sentimentos e sensações. Esse inverno foi rigoroso, pior que os outros, talvez pelo fato de que o meu coração esteja em uma temperatura negativa ou por falta de afeto. O que seria o amor? Não existe definição, amar ultrapassa qualquer barreira do entendimento. Poderia responder um nome, o nome da pessoa amada. Mas não sou a pessoa certa para falar sobre amor, nunca amei. Afirmo que já fui uma eterna apaixonada, mas por míseros sete dias, ou oito, não lembro ao certo. Vários rapazes foram donos dos meus pensamentos por algumas horas, mas nada ao ponto de me deixar levar pela insanidade do louco amor. Queria me perder em desejos absurdos e frases incoerentes, mas não consigo, o amor demora. Se destino existe, o meu resolveu brincar de esconde-esconde, quando vou encontrá-lo? Desejo um amor incondicional, preciso de palavras encantadoras, frases apaixonadas e poesias. Procuro alguém que me leve pelo braço quando eu tentar fugir, que me abrace enquanto durmo e tenha temperamento forte. Se não encontrar esse amor que busco, prefiro envelhecer só, sonhando com amores platônicos e idealizados em textos, que escrevo para as moscas.
- Amor, onde está? Não virá esta noite? O chá já está esfriando e você não chega. Preparei para você um coração recheado de emoção, fogo e desejo.
Grande ignorância aguardar algo que se esconde nas trevas da surpresa. Chamo de trevas, e não fique indignado ao ler isto, esperar o tempo que esperei, e espero, transforma a magia em ansiedade. Sinto náuseas.
Quero legitimidade. O sonho permanece abstrato e intolerável;
Necessito.
Não há controvérsias e não espero que queime, eu quero derreter o seu espírito e sentir a sua força.
Sou temperamental e tenho minhas dúvidas, mas seria uma ótima amante.
- Amor, onde está? Não virá esta noite? O chá já está esfriando e você não chega. Preparei para você um coração recheado de emoção, fogo e desejo.
Grande ignorância aguardar algo que se esconde nas trevas da surpresa. Chamo de trevas, e não fique indignado ao ler isto, esperar o tempo que esperei, e espero, transforma a magia em ansiedade. Sinto náuseas.
Quero legitimidade. O sonho permanece abstrato e intolerável;
Necessito.
Não há controvérsias e não espero que queime, eu quero derreter o seu espírito e sentir a sua força.
Sou temperamental e tenho minhas dúvidas, mas seria uma ótima amante.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Coadjuvante
Você tem todos os defeitos possíveis, comete as maiores gafes e usa meias para dormir; você fala comigo uma única vez na semana. Não concordamos em nada e não temos os mesmos amigos, mas você é capaz de causar os mais variados sentimentos em mim; eu amo você, eu odeio o seu jeito, eu amo os seus olhos, admiro o seu temperamento, confundo suas manías e aceito o seu modo de viver. Eu sonhava acordada quando estava ao seu lado e ainda penso em você antes de dormir, formávamos um belo casal, mas ficamos juntos por um pequeno tempo. O seu beijo foi como uma droga ilícita, os seus braços me fizeram querer abraçá-lo. Quanta raiva já senti de você, principalmente das vezes em que você me ignorou, quantas lágrimas derramei e você nunca soube . O destino o trouxe até mim e me fez coadjuvante na sua história, quis ser a protagonista, ser a sua mocinha, talvez, pelos olhos da sua namorada, eu tenha sido a antagonista, mas eu não trapaceei, não armei barracos, não fui à luta, então não me considero vilã. Eu quis que você escolhesse, eu esperei e talvez ainda espere. Não, seria lastimável dizer que ainda o espero. O meu plano, naquela época, era de ficarmos juntos para sempre, creio eu que o seu fosse outro. O destino que o pôs em minha vida de uma forma tão rápida, o tirou com uma velocidade ainda maior. Você está longe, já não sei mais o que o agrada, o que o faz feliz, não sei da sua rotina e não quero saber se existem outras, de outra já basta eu. Das coisas que me recordo, lembro muito bem do seu humor, um menino engraçado, assim, nunca mais irei encontrar, ainda posso vê-lo vestido com aquela calça larga, uma touca e os tênis... O tempo deixou saudades, lembranças e o mesmo afeto.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Impossível entender um coração
Essa ausência de sentimentos me entorpece de saudade do desconhecido, que me remete a imagens singulares e infinitas. Permaneço perplexa com tudo o que está a minha volta, contemplo-me serenamente e acabo voltando no tempo. Lembro-me muito bem de um grande amigo que tive, era mais do que um amigo e melhor do que um namorado, uma amizade inesquecível e repleta de afetos.
Não me recordo do dia em que nos conhecemos, mas creio que foi em junho de 1992, ambos com quatorze anos na época. Todas as tardes eu ia até a biblioteca municipal e me desprendia da realidade. Sempre gostei de ler, perdia horas do meu dia dentro do mundo da leitura, em busca da magia que não encontrava ao vivo e a cores. Em uma dessas tardes, percebi que a mesa, na qual costumava me sentar, estava ocupada por um menino, ele lia vorazmente.
Fiquei intrigada, nunca alguém havia sentado naquele lugar, ele era meu, era o meu espaço, ficava o mais longe possível de todos, por que ele tinha que sentar-se lá se haviam tantos lugares vagos? Caminhei em direção a ele, parei e o fitei por alguns segundos. Ele ergueu os olhos, levantou o rosto e perguntou se eu queria sentar... Permaneci em estado de choque, fiquei vermelha, o que eu estava fazendo ali? Sentei.
Comecei a ler pela oitava vez "O Crime do Padre Amaro", ele me olhou e disse pausadamente que admirava os livros daquele português bigodudo... Fiquei atônita, como ele podia ter a audácia de chamar o Eça de Queirós de “português bigodudo”? Eu o olhei com olhos de raiva... Mas só tive coragem de perguntar o que ele estava lendo. Respondeu-me que tinha começado a ler "Pé na Estrada", versão em português de "On the Road". Eu já tinha ouvido falar sobre o livro e quis saber se ele se interessava pelos beatniks, pela Contracultura e sobre tudo o que ela representava. Conversamos a tarde inteira. No outro dia, ele estava lá e assim seguiram-se os dias.
Ele lia o mesmo que eu, eu ouvia as mesmas músicas que ele. Não faltava assunto, só fazíamos silêncio quando alguém vinha chamar a nossa atenção ou quando começávamos a ler. Teve um dia que ele não foi, senti medo de perdê-lo, mesmo sabendo que ele não me pertencia (ou pelos menos pensava isso). Na tarde seguinte, quando o vi sentado lá, quis brigar. Onde já se viu ele me fazer esperar feito uma criança quando espera um doce? Ele sorriu e disse que tinha ido, para a cidade vizinha, comprar um presente para mim. Naquela hora estremeci e só quis abraçá-lo. Era uma corrente (a tenho em meu pescoço até hoje).
Passaram-se alguns anos e ele tinha se tornado meu confidente, eu falava e ele escutava, eu chorava e ele me acalmava, eu o amava muito, ele era um anjo intelectual na minha vida rotineira, ele era a minha rotina. Considerava-o metade de mim, um irmão que nunca havia tido. Ele dizia que me amava com o cérebro, pois não acreditava que amamos com o coração e isso me deixa dúvidas até hoje... Amamos com o cérebro ou com o coração? Amamos com tudo.
Quando comecei a namorar, ele foi o primeiro a saber, e eu, tola que era, na época não percebi que ele me amava de uma forma diferente, ele me amava como mulher, ele queria me amar e ser amado, só eu não havia enxergado, mas naquele instante pude entender. Ele me olhou com olhos aflitos, chorou, berrou, saiu. A amizade que tínhamos mudou, mas não deixamos de nos falar. O tempo seguia, eu começava e terminava novos romances, todos frustrados e ele sempre ali: sereno, pacato, silencioso, fraterno.
Mas a grande explosão atômica aconteceu quando ele veio para mim, espontaneamente, e disse que estava apaixonado: por outra. Isso doeu, me deixou acabada, não existia mais ar em meus pulmões, meu sangue havia se tornado transparente. Ficamos sem nos falar durante uma semana. Me senti traída, não queria o ver mais. Quanta incongruência... Eu havia negado o amor que ele quis me oferecer, não desejava mais nada além de sua amizade e agora, que o tinha perdido de vez, eu o queria somente para mim.
Ele começou um romance perfeito, acabamos nos afastando. Nossa amizade completava cinco anos. Mudei de cidade e comecei a cursar Letras. Ele também deixou a nossa pequena cidade, o seu namoro terminou, não sei se ele fez faculdade, não sei se encontrou novos amores, não sei se ainda pensa em mim. Será que sente a mesma nostalgia que eu? Hoje sou professora em uma universidade e já escrevi dois livros. Espero que ele tenha lido, também espero um dia reencontrar o meu grande amigo e poder dizer a ele que ele foi o meu verdadeiro e único amor.
Não me recordo do dia em que nos conhecemos, mas creio que foi em junho de 1992, ambos com quatorze anos na época. Todas as tardes eu ia até a biblioteca municipal e me desprendia da realidade. Sempre gostei de ler, perdia horas do meu dia dentro do mundo da leitura, em busca da magia que não encontrava ao vivo e a cores. Em uma dessas tardes, percebi que a mesa, na qual costumava me sentar, estava ocupada por um menino, ele lia vorazmente.
Fiquei intrigada, nunca alguém havia sentado naquele lugar, ele era meu, era o meu espaço, ficava o mais longe possível de todos, por que ele tinha que sentar-se lá se haviam tantos lugares vagos? Caminhei em direção a ele, parei e o fitei por alguns segundos. Ele ergueu os olhos, levantou o rosto e perguntou se eu queria sentar... Permaneci em estado de choque, fiquei vermelha, o que eu estava fazendo ali? Sentei.
Comecei a ler pela oitava vez "O Crime do Padre Amaro", ele me olhou e disse pausadamente que admirava os livros daquele português bigodudo... Fiquei atônita, como ele podia ter a audácia de chamar o Eça de Queirós de “português bigodudo”? Eu o olhei com olhos de raiva... Mas só tive coragem de perguntar o que ele estava lendo. Respondeu-me que tinha começado a ler "Pé na Estrada", versão em português de "On the Road". Eu já tinha ouvido falar sobre o livro e quis saber se ele se interessava pelos beatniks, pela Contracultura e sobre tudo o que ela representava. Conversamos a tarde inteira. No outro dia, ele estava lá e assim seguiram-se os dias.
Ele lia o mesmo que eu, eu ouvia as mesmas músicas que ele. Não faltava assunto, só fazíamos silêncio quando alguém vinha chamar a nossa atenção ou quando começávamos a ler. Teve um dia que ele não foi, senti medo de perdê-lo, mesmo sabendo que ele não me pertencia (ou pelos menos pensava isso). Na tarde seguinte, quando o vi sentado lá, quis brigar. Onde já se viu ele me fazer esperar feito uma criança quando espera um doce? Ele sorriu e disse que tinha ido, para a cidade vizinha, comprar um presente para mim. Naquela hora estremeci e só quis abraçá-lo. Era uma corrente (a tenho em meu pescoço até hoje).
Passaram-se alguns anos e ele tinha se tornado meu confidente, eu falava e ele escutava, eu chorava e ele me acalmava, eu o amava muito, ele era um anjo intelectual na minha vida rotineira, ele era a minha rotina. Considerava-o metade de mim, um irmão que nunca havia tido. Ele dizia que me amava com o cérebro, pois não acreditava que amamos com o coração e isso me deixa dúvidas até hoje... Amamos com o cérebro ou com o coração? Amamos com tudo.
Quando comecei a namorar, ele foi o primeiro a saber, e eu, tola que era, na época não percebi que ele me amava de uma forma diferente, ele me amava como mulher, ele queria me amar e ser amado, só eu não havia enxergado, mas naquele instante pude entender. Ele me olhou com olhos aflitos, chorou, berrou, saiu. A amizade que tínhamos mudou, mas não deixamos de nos falar. O tempo seguia, eu começava e terminava novos romances, todos frustrados e ele sempre ali: sereno, pacato, silencioso, fraterno.
Mas a grande explosão atômica aconteceu quando ele veio para mim, espontaneamente, e disse que estava apaixonado: por outra. Isso doeu, me deixou acabada, não existia mais ar em meus pulmões, meu sangue havia se tornado transparente. Ficamos sem nos falar durante uma semana. Me senti traída, não queria o ver mais. Quanta incongruência... Eu havia negado o amor que ele quis me oferecer, não desejava mais nada além de sua amizade e agora, que o tinha perdido de vez, eu o queria somente para mim.
Ele começou um romance perfeito, acabamos nos afastando. Nossa amizade completava cinco anos. Mudei de cidade e comecei a cursar Letras. Ele também deixou a nossa pequena cidade, o seu namoro terminou, não sei se ele fez faculdade, não sei se encontrou novos amores, não sei se ainda pensa em mim. Será que sente a mesma nostalgia que eu? Hoje sou professora em uma universidade e já escrevi dois livros. Espero que ele tenha lido, também espero um dia reencontrar o meu grande amigo e poder dizer a ele que ele foi o meu verdadeiro e único amor.
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