segunda-feira, 15 de julho de 2013

o retrato em que você não está

você está naquele velho disco dos doors
que fica na parede do meu quarto
e também está naquela camiseta preta
e no all star vermelho que eu parei de usar
você está no on the road que eu furtei
da sua colossal biblioteca e também
naquela caneca yellow submarine
onde já não tomo mais café ou chá
você está em todo solstício de inverno
e no  suéter cinza que se esqueceu de levar
e agora está neste vazio interno
que eu já não sei como sanar
você está na cena final de casablanca
no olhar cansado do humphrey bogart
você está em quase todas as poesias
do rimbaud e do verlaine e do baudelaire
também está nas lentes dos meus óculos
que eu não consigo mais limpar
você está quando escuto radiohead
e quando o jimmy diz you’re tearing me apart
você está nas polaroids do tarkovsky  
e também no surrealismo do dalí
você está em todos os meus escritos
e em todos os acordes que estou a ouvir
você está em tantas outras coisas
mas não está no meu último retrato    
não importa 
pois na verdade 
acredito não ser eu quem está ali 

terça-feira, 25 de junho de 2013

"os poetas são as estátuas de algum jardim"

o poeta se apaixonou pela escultura
que havia sido esculpida pela escultora
que era apaixonada por cada verso
das poesias escritas pelo poeta
a escultora esculpiu o rosto do poeta
para demonstrar o amor que nela existia
o poeta era narcisista e da sua face
poetou mentiras fúteis sobre o amor
sórdido e mórbido que por si sentia
declamou todas as estrofes à estátua
– sem ação ou expressão – e assim
restou a mesma escultura de mármore
e esta confissão:
os poetas são as estátuas de algum jardim
as escultoras são os princípios de uma inspiração 

domingo, 16 de junho de 2013

Relatos de Guido Gregório

eu progredi com aquela ideia de que um bom escritor
não precisa ser triste nem refém da solidão
renunciei aos demasiados frascos de comprimidos
e comprei duas entradas para assistir a uma comédia
estapafúrdia naquele antigo cinema que fede a mofo
convidei a vizinha do 402 e ela aceitou na mesma hora
se não fosse aquela enorme sobrancelha e as unhas roídas
eu teria embaçado com um beijo demorado
as lentes do fundo de garrafa que aquela infeliz usava 

Problema

nossa cultura
tão farta de amargura
nossa incerteza
gritada com firmeza
essa pobreza
que ainda perdura
a falta do saber
ser ou ter
o que se procura?

domingo, 26 de maio de 2013

Vinte e seis

não me peça para explicar
tudo o que há e não há
nem o que sobrou para recordar
porque você é a minha assassina
que apesar de me deixar
ainda jura me amar
com esse amor facínora

não pergunte o que não dá
para responder ou traduzir
não sou eu quem vai dizer
aquilo que não se pode exprimir

o que há em meus pensamentos
além da sua imagem em fragmentos?
o que restou em sua memória
sobre a nossa curta trajetória?

o que há nessas questões de amor
além de poucos argumentos?
o que existe de mim em você?!
pois há tanto de você em mim

fosse o nosso Eterno Retorno
ou fosse o fim dessa “guerra fria”
fosse você assim só para mim
ou a resolução de qualquer teoria
seria isto mais do que poesia?

quarta-feira, 15 de maio de 2013

O sofá amarelo que você me deu


diga-me o que passou pela
sua cabeça quando
resolveu partir
e me deixar abandonado
desolado e sentado neste sofá
amarelo e gasto
de amor

apenas eu e a minha
misantropia
atulhado de melancolia
sou isso que restou

você deve ter escrito
em algum pedaço de papel
coisas do tipo:

“tenho que partir. não quero mais fingir esse sentir tão oco. não vou mais me despir e deixar você exigir esse nada que eu tenho a oferecer.”

depois rasgou e jogou fora.

preferiu mentir
como subterfúgio
e me iludir
como escapatória
e deixou de ser o meu refúgio
se tornando apenas uma parte
da minha história

“eu não sou bom com o amor”


“eu não sou bom com o amor”
“eu me dou bem com as palavras”
esses são os clichês de um escritor
só que na verdade
nunca fui bom com sentimentos
eu tenho alguns dentro de mim
mas os levo presos na garganta
e os dissimulo com um pouco de ilusão etílica

então acabo escrevendo sobre mulheres
­– que sequer conheci – para afagar o meu próprio ego

realmente
eu nunca fui bom com o amor

eu experimentei algumas vezes
e até gostei por um certo tempo
mas com o passar dos meses
a velocidade do vento
apressadamente
agravava
daí se fez ventania e partiu

de partidas
eu entendo
nelas
eu encontro a dor

e aí surge a dúvida:
eu não sou bom com o amor ou amor não é bom comigo?