quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

poema para preencher o espaço de tempo que há entre nós

há tantas coisas que sempre
acabam me guiando ao teu
abraço verticalmente íntimo
e também há alguns intrusos
ocupando os velhos espaços
que deveriam ser preenchidos
por nossos laços subjetivos e
por nossa liberdade e também
por nossa avoenga hodierna
autenticidade repleta de riscos
de pecados libidinosos e doces
letras soletradas por lábios
alvos como tua face magra
e teu rosto casto ainda reluz
tua pele pálida que ainda há de
vir até mim de modo cálido
como teu sexo que permanece
sendo um mistério que desejo
desvendar e haurir com amor
pois já não sou mais imatura
e já não sou tão jovem assim
mas ainda me sinto toda tua
e tua sei que serei até o fim
mesmo que para isso precise
rimar e poetar sentimentos
sem demonstrar-me obscena
ou revelar-me absurda demais
à tua serenidade acirrante de
um homem trintenário que
já possui alguns cabelos cinzas
como pude perceber naquela
tarde de verão em que te vi
cortês e tão meu com o mesmo
charme de outrora e com olhos
mais cansados e carregados por
novas leituras e outras histórias
que não quero ouvir para não
precisar dizer-te por onde estive
nesses anos em que não te tive
para não declarar-te os meus
erros que sempre foram vulgares
para devolver à minha epistemologia
o teu idealismo transcendental

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

poema amarelo

se estou agora abstraída é porque ele me leva aonde vai
mas ele não vai a lugar nenhum e somente fica a me observar
e assim permanecemos inertes por um curto longo período
sentindo as antigas barreiras criadas por equívocos pungentes
desmoronarem como o muro de berlim no início de sua queda
na noite de nove de novembro de mil novecentos e oitenta e nove
absorta recordo-me do que fiz e de todos aqueles sentimentos
que não demonstrei e logo dissimulo olhares e reproduzo cenas
de filmes e tudo se torna bonito e ao mesmo tempo tão clichê
que acabo por não saber se é real ou apenas um universo utópico
eu sei que é tudo amarelo por outra vez porque ele me guarda
em seu abraço e não me esquece ao chão ou olvida os versos rotos
que declamo despidos à sua mouca malsinada perene audição
e se me findo em seu amor é porque nele há uma libido extrema
e uma doçura tão amena pois me compara a helena de troia
e me furta com estrofes singelas e com toda doçura de seus lábios
que dizem: look at the stars look how they shine for you
então respondo: I swam across I jumped across for you
e sei que é tudo amarelo por outra vez num recomeço pacífico
e poético com palavras afáveis e rimas pobres e rimas nobres
haicais magnéticos que me levam ao interior de um cofre 
em que me deito junto ao meu estro poético enxofrado 
e escrevo... escrevo... escrevo... sobre ele que era tão poeta 
e que por ser assim ao fim em poema se transformou 
e por outra vez eu vejo tudo amarelo e permaneço absorta 
e permaneço abstraída e permanece amarelo

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

alucinações causadas pela cafeína

I

tomo uma xícara de café às 3h
e escrevo três versos de poesia
de péssima qualidade sobre
mentiras que atravessam
as minhas vidraças

penso: gostaria de ser alguém que não existisse

mais café às 4h
e pergunto-me se toda
essa decadência é para doer
e se a cafeína ainda fará efeito

interrogo-me: devo remover-me de mim?


II

acredito ser como alice ayres
com uma pitada de anna cameron
e sinto-me perto demais de verdades
ilusórias e falsas realidades de qualquer
estória

desejo: não exista memória!

observo-me em um antigo
espelho oval e vejo diversas
cores em meus cabelos
como se fosse clementine
kruczynski em distintas
épocas do ano


III

em exóticas situações diárias
com plebeus de praças e anões
de jardim em diferentes espaços
do mundo
na sala

há retratos de juarez machado
e cores vivas mortas de tédio
penduradas no meu altruísmo
solitário
tal qual amélie poulain


ao fim: haverá outro velho novo dia amanhã.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

eterno fim

morrerei de poemas de doutrinas
de prosas a cada verso de uma poesia
morrerei de frio em julho e em setembro
cederei às flores ao céu ao seu ao véu ateu
morrerei sem vestes no banco dos réus
ou ao leste despertando sem sangue
morrerei ao poente rubro no chão
findarei em escritos nalgum papel
sem vírgulas sem pontos sem fim
eterno em mim

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

cena de cinema francês

ocorre como num filme do jeunet
ilustrando personagens reais
numa tela repleta de cores tão belas
discorre sobre questões existenciais
acreditando pensar como godard
quando a cultura acaba com a arte

vem você dizer
só espero que não espere tanto de mim

há de ser você
só espero que não espere tanto de mim

escrevendo um roteiro que queria escrever
imitando algum filme francês
pra quem sabe chegar a cannes
no ano que vem

pra quem sabe encontrar truffaut
e jean renoir em outro lugar

domingo, 2 de novembro de 2014

Dimensões

I

retirei-me daquele universo vão
onde o oxigênio vagara em desuso
e o tempo esquecera-se de seguir
ininterrupto entre realidade e ficção
ausentei-me porque sentimentos
não estavam em eloquência – pois
não doíamos na mesma frequência –
e as medulas já não eram tão profundas
quanto as maçantes lacunas psíquicas
afastei-me de todo ceticismo pirrônico
e transfixei ações transcendentalistas
até findar no exato ponto em que
iniciara o meu itinerário lacônico:
dois universos podem colidir


II

toda pessoa é um universo
e em todo cosmo há um ser
cada mentira dita é uma
verdade ouvida – acredite
ou não – e o que não for dito
pode ser ouvido em um som
negativo em qualquer expressão


III

há várias dimensões em um universo
e diversos sentimentos em uma pessoa
segundo a teoria das supercordas há
dimensões ocultas que estão enroladas
segundo a teoria da vida há sentimentos
ocultos que podem nos deixar enrolados


IV

refugiei-me em outro universo
que talvez esteja ajustado com
a minha frequência e que –
quiçá – não possua dimensões
que se ocultem quando suas
presenças se fizerem necessárias
encontrei-me em um cosmo
atento e propício que até então
não se mostrou aéreo e apático
às minhas dimensões: descobri-me
em um universo poético que –
de uma – dimensiona-me em várias!

sábado, 1 de novembro de 2014

À esquerda

Vista-se de teu manto carmesim
e revele tua bravura escarlate
aos que afrontam o Estado –
nossa Pátria purpúrea – ,
brade: estou pronto para o combate!

Tua cor vermelha comunista,
como o sangue derramado ao chão,
 faz-se potência à nossa sofrida Nação
e fulgura com intensidade de norte a sul
da nossa terra socialista.

Encontre-se entre os operários
em uma luta de classes.
Lança-te com a lança das minorias  –
que são maioria – e brade:
“Proletários de todos os países, uni-vos!”