Fim: recomeço.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
domingo, 26 de julho de 2015
paredes beges
quando desatava
os teus nós de solidão
e te amarrava
nos meus olhos de tristeza
você não me
dizia tudo o que sentia
quando te
encontrava empinando
mil pandorgas
com os pequenos
o vento
carregava meu aceno até você
que não me
compreendia
hoje ainda canto
que te faria um tapete
branco de crochê
e te leria hilda nua
mesmo que não me
pedisse
eu te mostraria
o vermelho dessa vida
mas sem teus
jornais no fundo do baú
sem tuas roupas
no meu guarda-roupa
só me resta uma
varanda vazia
mais uma vida
sozinha
paredes beges
pintam a cena
no tempo dos
ponteiros do relógio
e numa cadeira
de madeira e de palha
meus velhos
livros adormecidos
ficam os meus
discos colados
no pó e
pendurados numa parede
só até me sinto
bem melhor
do que quando me
vi numa falsa
tela de tevê
sentada sobre uma mesa
sob um lustre
amarelo condenado
algumas pessoas bitoladas
jantavam
enquanto eu te
escrevia do meu jeito
porque não te
percebi de outro jeito
*música
*música
quinta-feira, 16 de julho de 2015
sobre tapetes de crochê e tela de tevê
encaixo-me
naquele tipo de
pessoas
normalmente estranhas
que se sentem
apenas solitárias
esquisitas como
plutão quando
a sonda new
horizons passou
deixando-o
singular para trás
sinto-me fria
como os granizos
que despencaram no
teu telhado
e te perturbaram
com o mesmo
frio que te
tirou o sono quando
nevou no verão de
nosso quarto
ocultando nossos
tapetes de crochê
hoje ainda me
escondo de tudo e
de todos sem
descobrir o porquê
sem acender as minhas
luzes ou
aumentar os meus
volumes para que
não possam me ver
nem me ouvir
imóvel em uma
falsa tela de tevê
pequeno pedaço de sentimento notívago
nestes gelos,
que caem sobre
meus dedos e me
congelam
as letras – que
deveriam sair
e morar em
algumas amarelas
folhas de papel
–, observo uma
questão que
surge subitamente
qual é mais
frio: o inverno do ano
ou o inverno da
alma? há resposta.
imóvel permaneço
recordando
meus olhos que
moram nos seus,
e confirmo que para
mim sempre
foi tão difícil
escrever sobre você,
porque você me
dói em cada parte
deste corpo, e
se demora em meus
pensamentos como
aquela visita
que fica e nunca
mais vai embora.
eu não sou uma
pessoa normal
que sente os
sentimentos, pois
esta estranheza me
faz sofrê-los
sem ter um
porquê. eu sofro o
amor, como sofro
a saudade,
como sofro
qualquer coisa
que me faça
sentir você.
eu sofro você.
sábado, 27 de junho de 2015
Poema melancólico de alcova
Raios e trovões:
o céu despenca, em uma fúria de sons e luzes,
como nunca se
viu antes. Estamos protegidos por longas paredes
e muros altos. A
tempestade bate à porta furiosa, porém aqui ela
não entra.
Escuto teus ruídos como animais que estão a cercar sua
presa, cantos
malditos por corredores vazios. A chuva molha a
vidraça, escorre
contornando uma silhueta feminina, um reflexo
que espreita pela
porta logo atrás de mim, um leve sorriso, um
movimento de
mãos e uma taça vazia que anseia por mais vinho.
Invado teu
recinto e teus olhos com a minha pálida face, com os
meus sôfregos
passos, com a luz de parasselênio do pequeno castiçal
que carrego. Clair
de lune flutua pelos corredores escuros em busca
de mais um
cálice de vinho, bebida que mancha minha pele com sangue
e mancha teus
macróbios lábios com versos negros de invernos cinzentos.
Rogo que o
inverno de nossa alma vague, com o som de Debussy, pelo
interior deste
castelo e que se esconda, em velhos baús abandonados, pelos
esquecidos
aposentos das óperas outrora dramatizadas por insanos solitários.
O silêncio nasce
antes do estremecer da terra. Na escuridão, guiado por
afagos da luz
amarelada, das velas e do cristal das taças, reluz o doce amargo
do vinho. Uma
visão: através da grande vidraça, as copas das árvores, em seu
balançar, dançam
tomadas por seus pares, os impetuosos e delicados ventos.
“A última taça, minha
estimada”, assim é oferecido. O último olhar lançado à
tempestade antes
que ela cesse, antes que a música silencie, antes que as velas
se apaguem,
antes que o dia nasça e, com ele, retorne o velho Sol brilhante.
Teus dedos já
não tremem como antes e teus olhos já não sangram como
costumavam
sangrar. Minhas mãos já não são gélidas e meus desejos
tornam-se
cálidos. O vinho se faz insuficiente e o silêncio se transforma
em uma eterna
melodia celta. Os pedidos nascem na garganta e desabam
ao estômago. As
gotas da chuva presas nas vidraças voam direto às nossas
faces e
tornam-se lágrimas pesadas de almas que foram olvidadas por um
deus
desconhecido. Não há luz. Não há sabor. Não há silêncio. Há dor.
Por outra vez – e para sempre – há o vetusto
medo de não ser o que se é.Laís Grass Possebon & Eduardo Lima
Blog Utopia Cotidiana, por Eduardo Lima
segunda-feira, 22 de junho de 2015
8
Vejo-me melhor
em poemas do que
em fotografias
alegres de domingos
falsos quando
palavras fáceis soam
como a magia da
flauta de Mársias.
Talvez sejam as
lentes frágeis destes
velhos óculos
quadrados que já não
servem para demonstrar
minha face
mas apenas meus
dizeres em versos.
Observo-te
solitária e ofuscada pelo
tempo de
parasselênio da saudade
azul daquele
antigo amado bardo
que te escreveu
em uma folha em
branco e que te
queimou com uma
vela branca sem
guardar tuas cinzas
em um pote ou
jogá-las em um lago.
Reescrevo-me
todas as noites antes
de me recolher
aos meus aposentos
e costuro este
coração com pedaços
de nomes de
gente ou com linhas de
estrofes mudas
de uma poesia escrita
por Rimbaud
antes de sua partida.
Recordo-te
pequena sobre a cama
sem ter o que
falar nem o que ouvir
e lembro-me que
compartir o silêncio
é o método mais
sincero de se declarar
o amor
conservado entre duas pessoas.
Beijo-te sem
movimentar meus olhos
melancólicos
como naquela tarde fria
de junho quando
dormi no teu sofá duro
somente para te
acompanhar ao teatro.
Estaremos
dormindo quando ocorrer
o fim do Cosmos
e apenas teremos
nossos membros
por dentro da gente.
Morreremos em
todas as frases escritas
e em todas as
fotos guardadas em álbuns.
Seremos poeiras
restantes do nosso universo.
domingo, 7 de junho de 2015
Cerejas Escuras
I
Dentre as venustas hetairas,
com seus cabelos tingidos, olvidadas
em letras de livros, de escritos históricos,
prima-se Aspásia, sofista
cortesã, nascida em Mileto, amante de
Péricles, egéria de Sócrates.
Sábia, sabia gozar. Gozava de prestígio na
sociedade de maridos de
mulheres que em seus lares adormeciam
abstraídas com suas filhas.
Na face de toda menina transmutada em mulher
refletia uma das três
fêmeas de Demóstenes, assim permanecendo até
o instante em que
algumas pequenas pícaras se metamorfosearam
em rebeldes medusas.
II
Todas mulheres, chamadas de bruxas, de putas,
poetisas despidas de
preces, cruas, fugindo de catedrais góticas e
confundindo os mortos,
que habitavam sepulcros sem luz, com
fantasmas religiosos sem fé.
Joanas desciam à força de seus cavalos,
cuspidas, surradas, afoitas,
madalenizadas dirigiam-se ao crucifixo
sagrado no altar do perdão.
“Espero-te, por dentro, desnuda”, disse a
primeira a sentir a brasa
cáustica nascida do ódio figadal dos piedosos
crentes dos últimos
dias medievais do século XV do Calendário
Juliano da Era Comum.
III
Mulheres nativas do solo latino corriam na
mata enquanto seus pares
dormiam na morte. Capturadas por Quixotes,
reclusas em moinhos de
vento, golpeadas pelo tempo eurocêntrico e
pelo conceito dos brancos,
cobriam seus seios com o sangue escorrido
sobre suas peles morenas
e no peito carregavam forçosamente a cruz
missioneira, suportando o
peso de um dos maiores símbolos de opressão –
ainda hoje louvado –
deste pálido ponto azul, chão de índias que já
não dançam por chuva,
cultura e amor, mas que chovem em lágrimas refertas
de corte e de dor.
IV
Femininas, sovietes, francesas, latinas,
chinesas. Renascem todos os
dias. Marias, Cecílias, Carmelas, Sofias,
Emílias. Adormecem todas as
noites. Mulheres sorrindo sem pudor, como
quis Clarice, e despidas de
silêncio. Fêmeas, irmãs, amigas, mães, proletárias,
independentes de
paixão. Demasiadamente vivas, sinteticamente duras,
plenas de frases
sobre as linhas dos corpos, sobre as páginas
da existência, sob o céu
surreal, e, apesar de apagadas dos escritos
da Estória, sempre haverá,
na História, o sangue escuro de cada uma das
vítimas do machismo.
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