quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Poema ao mar I: caixinha de música

o silêncio criado se vai
pelo vão da porta
entreaberta
o som da caixinha de música
se esvai pela vidraça quebrada
coberta
por uma cortina de flores
margaridas brotaram do lado
de fora da velha cabana
não há sonoridade nos cômodos
não há silêncio nos aposentos
estranho silente sonoro
desmonta quarto e cozinha
vazia se nota a mesa
o assoalho apaga marcas
de botinas sujas de terra
os homens se foram
foram ao mar vender
seus dias restantes
seus restos de homens
sobre eles não se fala
nessa família de mulheres
fêmeas pariram sozinhas
meninas cresceram sem sonhos
de serem mulheres
de famílias
de homens
do mar
marinheiros se vão
ao porto embarcam
não retornam às margaridas
de suas cabanas antigas
onde estranhos silentes sonoros
desmontam caixinhas de música
das meninas sem sonhos

sábado, 2 de janeiro de 2016

vida violeta: ela acrônica

enquanto crianças corriam pelo gueto de varsóvia
mortas de medo do tempo e sem ar nos pulmões
viu-se uma carta de luz narrar a vida acrônica de
uma jovem que subsiste em um futuro violeta

ouvindo canções perdidas de mãeana a radiohead
umedecendo seus olhos mpb e seus lábios rock’n’roll
ama páginas marcadas costuradas no corpo celeste
e conta os astros que revelam segredos do cosmos

dizem que noutra época a moça se perdeu com
deuses do monte olimpo e por isso acabou presa
num tempo inundado de pessoas sem quimeras
e teve de se contentar com estórias em tela plana
                                                                                    
há relatos de que ela foi a primeira a furtar livros
da biblioteca cardíaca do último condado fantasma
da primeira nação oxidada do universo luminoso
deixando sem peso as estantes de árvores mortas

sabe-se por aí que ela corre e tenta alcançar o real
mas um vento de cores frias não a deixa sair de seu
intelecto utópico e assim sua voz continua soando
como clair de lune para as audições mais raras

ela revive seus dias de outrora e se percebe entre
flores mitológicas numa terra cintilante em que
há o celestial nos sentimentos e o sexo tântrico
é comum entre os amantes e seus corpos poéticos

enquanto os pequeninos de varsóvia se perdiam
pelo gueto e dormiam pensando em suas mães
a carta de luz ensinou a eles a capacidade humana
de sonhar e de desejar a vida numa vida melhor

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ode holocênica dos Campos Elísios – De Carmela para o Jardineiro

Era Día de los Muertos quando enterrei
Tuas linhas pequenas e níveas
E linho plantei sobre elas e sobre as flores
Antigas que estavam a vivificar
Os ruídos luminosos do longo fim de ano


Era Día de los Muertos quando cortei
Meus fios laranjas e lisos
E na nuca deixei vivo o cheiro de mar
De um outono frio de maio
Dissimulando os acordes de fim de ano


Era Día de los Muertos quando matei
A morte escura e cínica
E ancorei no velho cais de outra terra
Uma nova forte ventura
Para revelar algum navio de fim de ano


Era Día de los Muertos quando deixei
Apagar sem piedade
As chamas sanguíneas da lareira de tuas
Veias azuis de saudade
Antes de sentir o sangue do fim de ano


Era Día de los Muertos quando evitei
Numa rua deserta
Tua face marcada pela vida da minha
Vida então encoberta
Pelo acórdão lúgubre do fim de ano


Era Día de los Muertos quando amei
O holoceno sucumbido
E terminei todas as leituras maçantes
Para o Dia de Natal
Fortificar-se o mirante de fim de ano

sábado, 19 de dezembro de 2015

Carmela e o Jardineiro

Carmela:
Quando desatava os teus nós de solidão
E te amarrava nos meus olhos de tristeza
Você não me dizia tudo o que sentia
Quando te encontrava empinando
Mil pandorgas com os pequenos
O vento carregava meu aceno até você
Que não me compreendia
Hoje ainda canto que te faria um tapete
Branco de crochê e te leria Hilda nua
Te mostraria o vermelho dessa vida
Mas sem teus jornais no fundo do baú
Sem teu guarda-roupa
Só me resta uma varanda vazia
Mais uma vida sozinha


Jardineiro:
Na minha pele, teus cacos de vidro se perdem
Nos velhos livros, tuas fotos guardadas escrevem
Cartas a Ophelia esquecido comigo
Contigo, meus discos de folk, de blues e de rock
Noite bucólica – ao teu encalço me vejo
Descalça – no meu segredo te vejo
Sagrada – sob a luz de parasselênio
Cartas a Ophelia esquecido comigo
Contigo, meus discos de folk, de blues e de rock

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

As flautas da abóbada celeste

Não fossem as flautas da abóbada celeste, eu teria permanecido deitada ao lado das margaridas no Jardim. Entregaram-me novas e boas notícias, por meio de um som casual, sobre as leituras das madrugadas velhas. Talvez meus pés descansados desejassem correr para fora do horto, talvez desejassem mais. Voltei a deitar-me ao lado de minhas flores favoritas. Voltei, sim, e assumo ter feito isso para não o deixar só e adormecido, apenas com seu grande coração sentimental, sonhando com os versos do Garoto do Maiakóvski que li minutos antes de abrir meu coração covarde. Não poderia deixar minhas margaridas e meu Dionísio para trás. Já não poderia esquecer. Já não saberia correr. Minha razão, combatendo centelhas do corpo, disse-me para voltar a dormir. Adormeci. Admiti minhas fraquezas como jamais havia feito. Mostrei meus sinais de ausência. Abri minhas gavetas torácicas e deixei que guardasse seu sentimentalismo de bom sujeito. Torneio-o sujeito de minha oração. Pedi ao Cosmos com delicadeza, e as poeiras interestelares nos atingiram, e nos levaram à Nebulosa Laguna, e nos fizeram eternos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O beijo de Nimue

Declarou-se árido e abandonou o lago alfa. Atravessou dois condados com sangue nos olhos. Matou o estado e chegou a Montana. Desconhecia os folclores trazidos pelos ébrios imigrantes. Suou. Sujeitou-se aos costumes. Casou-se com uma antropóloga e se fez objeto. Os anos se passaram e os traços marcaram sua face. Deixou um manuscrito ao lado da cama. Retornou ao lago alfa. O lago mostrou-se ômega. Entregou-se água. Despertou em outro universo. Foi beijado por Nimue.

Folclórica

um conto
esquecido
num folk
a estrofe:
estopim


então você
sem um porquê
jogou no mar
o livro antigo
que te dei
no Natal
sobre o Sal
e um amigo


o tempo secou
os seus pés
e os meus pés
Hefesto desejou


no espaço
da sua varanda
silenciou o som
de Sírinx, sim
talvez se chame Pã


e o suéter cinza
que fiz
com lã de amor
você doou
pro seu avô
em maio


mas os gestos
olhares inquietos
no jeito do amor
o beijo partido
no fim do amar
sua arma secreta
segredo ainda
guardado


no fundo do mar
um manuscrito
esquecido
um livro
você jogou
no fundo do mar
o fim do amor


o tempo secou
os seus pés
e os meus pés
Hefesto desejou