sexta-feira, 7 de junho de 2019

imessage

sempre gostei dessas mensagens antigas
que me chegam codificadas à noite
antes que eu deixe peito e mente a sós
elas surgem no canto da tela e eu leio
e releio e arquivo e guardo todas comigo


sempre gostei dessas mensagens antigas
que me chegam repetidas vezes na vida
antes que eu abandone meus paradigmas
e não mais encontre soluções possíveis
talvez eu não saiba não guardar todas comigo


então coleciono todas essas mensagens antigas
que eu espero continuar encontrando no canto
da tela do meu celular – à noite e ao longo
da vida – enquanto houver bateria

lexical

seus olhos: meu dicionário
todas as frases multiplicam-se
e alteram os reais significados
seus sentidos submetidos ao
submerso diagnóstico da língua
verdade seja dita
não há extremo entre parênteses
ou vírgulas perdidas nas linhas
de seu texto corporal
todos os gestos dos versos
absurdos são promessas findas
em algum escrito sazonal
na pele os poemas perdem
os porquês e as reticências
são riscos que ficam e marcam
são ilegíveis sentidos vagos
minhas mãos: seu vocabulário

segunda-feira, 3 de junho de 2019

postal perdido

ontem os postais do erico

caíram
da
minha
 janela
           
hoje eu guardei um postal
que você me deu
dentro
de
um
livro
seu

não há mais nenhum postal
para postar ou para perder

não há nenhum postal
que me ajude a esquecer

o dia em que ao vento te vi bonita
de tão bonita parou o

tempo

foi quando senti que não faria sentido
te transformar em um postal

perdido

terça-feira, 14 de maio de 2019

creme de mandioquinha

cozinhar também
é inventar poemas

terça-feira, 7 de maio de 2019

amor

honestamente
no meu peito sempre esteve presente o vórtice dos sentimentos
e a valentia de me atirar ao tramite estreito do precipício alheio
reconhecer-me em cada início de catástrofe nunca foi um pesadelo
esse desastre já nasceu com toda gente e vem de outro hemisfério
não inventaram para ser escárnio de uma multidão indiferente
não somaram aos anos malogrados nem sentenciaram corações
permitiram a licença poética a cada verso do sentir compartilhado
abriram os portões das terras a serem desbravadas por todas e todos
sem designar autoridades ou determinar protótipos ou dar desculpas


é verdade
que no meu peito sempre esteve presente o vórtice dos sentimentos
e a valentia de vencer as mágoas e resguardar as memórias brandas
esquecer-me do dia triste do meu avô e de que neste mês fará um ano
foi mais difícil do que guardar todas as fotos dentro de cada livro
– e saiba que foi custoso deixar as fotos nos interiores dos livros –
na estante não há mão nem braço ou boca para tocar em outra
não há abraço ou respiração involuntária e lenta durante o sono
ao menos não há culpa como essa que ficou após a morte do vô
mas há os inventos e os pequenos pedaços de imagens cruas


de modo transcendente
no meu peito sempre esteve presente o vórtice dos sentimentos
e a valentia de ser e de saber amar
o amor

quinta-feira, 25 de abril de 2019

espaço e tempo: as caixas

choveu tanto que todas as caixas derreteram sozinhas
deixadas ao lado de sacos de lixos na calçada da rua
da minha casa e continuou chovendo muito que sequer
saí para fora do escritório depois do fim do expediente
e não comprei café e água ou chá e vinho e qualquer
coisa que possa me alimentar e também te alimentar
porque eu sempre me preocupo se tu vais passar fome
depois de me aguentar por quatro horas reclamando
que já não tenho minutos para gastar em algumas folhas
de processos velhos refertos de ácaros e de mentiras
e quando parar de chover – porque em um momento,
meu amor, não haverá mais chuva – não perderei o meu
tempo já chamado de subjetivo ou de noção a priori
e como kant negarei a realidade dele e penso que pelo
bem do sujeito desta oração farei o mesmo conosco
sem arrependimentos ou sentimentos e ressentimentos
então depois de encerrado todo o dilúvio e de toda água
potável haver acabado tu compreenderás que era fonte
esgotável em um tempo de intuição interna não real
como objeto e que não será possível reconstruir as caixas
que foram deixadas sozinhas do lado de fora da casa

sábado, 6 de abril de 2019

na cidade

à noite o céu é mais bonito no campo
inventam-se estórias sobre cometas
e crenças antigas dos pais dos avós
acompanham o vento que apaga o fogo
no chão as veredas perenes são firmes
distantes estão as metrópoles e seus guetos
e dentro o desejo de sair em silêncio
árduo êxodo de lembranças bucólicas
o campo carrega muitos segredos
em contrapartida no céu da capital
há menos pingentes e vaga-lumes
as luzes acendem sozinhas à noite
na esquina da rua e inertes na sala
vidraças trincadas prendem o ar
sufocadas como se doentes fossem
nas janelas dos prédios de hospitais
denominem independência moderna
individualista ou qualquer terminologia
solta em um artigo de revista digital
o tempo é honesto de certo modo
parados estavam os dois quando
perderam o medo do movimento
como quem se perde na cidade
perderam-se imóveis do lado
oposto de cada calçada deserta
uma rua referta de carros blindados
inquieta paisagem contemporânea
a cidade ajuda a guardar os segredos