quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Não coma capim


Inferioridade é uma derrota da alma; inferiorizar-se é a perda das perdas.
Mas como esperar o contrário se vivemos em um mundo em que homens de grande capacidade econômica cospem nas cabeças de uma população pobre e inferior, porém rica de espírito e fé.
Para onde irá toda a riqueza que possui hoje? Ensine o seu filho a ter respeito e humildade; isso é a base da boa educação; a força da alma. Tenha gentileza.
Acredite na sublime ordem superior, pois esse Universo, do qual você faz parte, é de tamanha subjetividade que seria impossível descrever a magia que o envolve.
Ninguém sabe o que há depois da morte;
Morte terrena.
Não levante a sua cabeça ao passar ao lado de pessoas de classes diferentes, elas, assim como você, realizam as mesmas necessidades fisiológicas.
Não seja ignorante, tenha capacidade de debater, não critique a opinião do outro, ela só não vale mais do que a sua. Não coma capim.
Se a arrogância faz parte do seu estado de espírito, desista de acreditar que o seu caminho de poder irá longe.
Você não é obrigado a lavar a bunda de políticos corruptos, mas pode escolher se quer beijar as mãos de homens poderosos.
Sentiria náuseas;
Faço parte de uma sociedade fajuta em que sair em colunas sociais é mais importante do que ler um livro... Santa ignorância.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O chá já está esfriando

Quanto desperdício de sentimentos e sensações. Esse inverno foi rigoroso, pior que os outros, talvez pelo fato de que o meu coração esteja em uma temperatura negativa ou por falta de afeto. O que seria o amor? Não existe definição, amar ultrapassa qualquer barreira do entendimento. Poderia responder um nome, o nome da pessoa amada. Mas não sou a pessoa certa para falar sobre amor, nunca amei. Afirmo que já fui uma eterna apaixonada, mas por míseros sete dias, ou oito, não lembro ao certo. Vários rapazes foram donos dos meus pensamentos por algumas horas, mas nada ao ponto de me deixar levar pela insanidade do louco amor. Queria me perder em desejos absurdos e frases incoerentes, mas não consigo, o amor demora. Se destino existe, o meu resolveu brincar de esconde-esconde, quando vou encontrá-lo? Desejo um amor incondicional, preciso de palavras encantadoras, frases apaixonadas e poesias. Procuro alguém que me leve pelo braço quando eu tentar fugir, que me abrace enquanto durmo e tenha temperamento forte. Se não encontrar esse amor que busco, prefiro envelhecer só, sonhando com amores platônicos e idealizados em textos, que escrevo para as moscas.

- Amor, onde está? Não virá esta noite? O chá já está esfriando e você não chega. Preparei para você um coração recheado de emoção, fogo e desejo.

Grande ignorância aguardar algo que se esconde nas trevas da surpresa. Chamo de trevas, e não fique indignado ao ler isto, esperar o tempo que esperei, e espero, transforma a magia em ansiedade. Sinto náuseas.

Quero legitimidade. O sonho permanece abstrato e intolerável;

Necessito.

Não há controvérsias e não espero que queime, eu quero derreter o seu espírito e sentir a sua força.

Sou temperamental e tenho minhas dúvidas, mas seria uma ótima amante.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Coadjuvante

Você tem todos os defeitos possíveis, comete as maiores gafes e usa meias para dormir; você fala comigo uma única vez na semana. Não concordamos em nada e não temos os mesmos amigos, mas você é capaz de causar os mais variados sentimentos em mim; eu amo você, eu odeio o seu jeito, eu amo os seus olhos, admiro o seu temperamento, confundo suas manías e aceito o seu modo de viver. Eu sonhava acordada quando estava ao seu lado e ainda penso em você antes de dormir, formávamos um belo casal, mas ficamos juntos por um pequeno tempo. O seu beijo foi como uma droga ilícita, os seus braços me fizeram querer abraçá-lo. Quanta raiva já senti de você, principalmente das vezes em que você me ignorou, quantas lágrimas derramei e você nunca soube . O destino o trouxe até mim e me fez coadjuvante na sua história, quis ser a protagonista, ser a sua mocinha, talvez, pelos olhos da sua namorada, eu tenha sido a antagonista, mas eu não trapaceei, não armei barracos, não fui à luta, então não me considero vilã. Eu quis que você escolhesse, eu esperei e talvez ainda espere. Não, seria lastimável dizer que ainda o espero. O meu plano, naquela época, era de ficarmos juntos para sempre, creio eu que o seu fosse outro. O destino que o pôs em minha vida de uma forma tão rápida, o tirou com uma velocidade ainda maior. Você está longe, já não sei mais o que o agrada, o que o faz feliz, não sei da sua rotina e não quero saber se existem outras, de outra já basta eu. Das coisas que me recordo, lembro muito bem do seu humor, um menino engraçado, assim, nunca mais irei encontrar, ainda posso vê-lo vestido com aquela calça larga, uma touca e os tênis... O tempo deixou saudades, lembranças e o mesmo afeto.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Impossível entender um coração

Essa ausência de sentimentos me entorpece de saudade do desconhecido, que me remete a imagens singulares e infinitas. Permaneço perplexa com tudo o que está a minha volta, contemplo-me serenamente e acabo voltando no tempo. Lembro-me muito bem de um grande amigo que tive, era mais do que um amigo e melhor do que um namorado, uma amizade inesquecível e repleta de afetos.

Não me recordo do dia em que nos conhecemos, mas creio que foi em junho de 1992, ambos com quatorze anos na época. Todas as tardes eu ia até a biblioteca municipal e me desprendia da realidade. Sempre gostei de ler, perdia horas do meu dia dentro do mundo da leitura, em busca da magia que não encontrava ao vivo e a cores. Em uma dessas tardes, percebi que a mesa, na qual costumava me sentar, estava ocupada por um menino, ele lia vorazmente.

Fiquei intrigada, nunca alguém havia sentado naquele lugar, ele era meu, era o meu espaço, ficava o mais longe possível de todos, por que ele tinha que sentar-se lá se haviam tantos lugares vagos? Caminhei em direção a ele, parei e o fitei por alguns segundos. Ele ergueu os olhos, levantou o rosto e perguntou se eu queria sentar... Permaneci em estado de choque, fiquei vermelha, o que eu estava fazendo ali? Sentei.

Comecei a ler pela oitava vez "O Crime do Padre Amaro", ele me olhou e disse pausadamente que admirava os livros daquele português bigodudo... Fiquei atônita, como ele podia ter a audácia de chamar o Eça de Queirós de “português bigodudo”? Eu o olhei com olhos de raiva... Mas só tive coragem de perguntar o que ele estava lendo. Respondeu-me que tinha começado a ler "Pé na Estrada", versão em português de "On the Road". Eu já tinha ouvido falar sobre o livro e quis saber se ele se interessava pelos beatniks, pela Contracultura e sobre tudo o que ela representava. Conversamos a tarde inteira. No outro dia, ele estava lá e assim seguiram-se os dias.

Ele lia o mesmo que eu, eu ouvia as mesmas músicas que ele. Não faltava assunto, só fazíamos silêncio quando alguém vinha chamar a nossa atenção ou quando começávamos a ler. Teve um dia que ele não foi, senti medo de perdê-lo, mesmo sabendo que ele não me pertencia (ou pelos menos pensava isso). Na tarde seguinte, quando o vi sentado lá, quis brigar. Onde já se viu ele me fazer esperar feito uma criança quando espera um doce? Ele sorriu e disse que tinha ido, para a cidade vizinha, comprar um presente para mim. Naquela hora estremeci e só quis abraçá-lo. Era uma corrente (a tenho em meu pescoço até hoje).

Passaram-se alguns anos e ele tinha se tornado meu confidente, eu falava e ele escutava, eu chorava e ele me acalmava, eu o amava muito, ele era um anjo intelectual na minha vida rotineira, ele era a minha rotina. Considerava-o metade de mim, um irmão que nunca havia tido. Ele dizia que me amava com o cérebro, pois não acreditava que amamos com o coração e isso me deixa dúvidas até hoje... Amamos com o cérebro ou com o coração? Amamos com tudo.

Quando comecei a namorar, ele foi o primeiro a saber, e eu, tola que era, na época não percebi que ele me amava de uma forma diferente, ele me amava como mulher, ele queria me amar e ser amado, só eu não havia enxergado, mas naquele instante pude entender. Ele me olhou com olhos aflitos, chorou, berrou, saiu. A amizade que tínhamos mudou, mas não deixamos de nos falar. O tempo seguia, eu começava e terminava novos romances, todos frustrados e ele sempre ali: sereno, pacato, silencioso, fraterno.

Mas a grande explosão atômica aconteceu quando ele veio para mim, espontaneamente, e disse que estava apaixonado: por outra. Isso doeu, me deixou acabada, não existia mais ar em meus pulmões, meu sangue havia se tornado transparente. Ficamos sem nos falar durante uma semana. Me senti traída, não queria o ver mais. Quanta incongruência... Eu havia negado o amor que ele quis me oferecer, não desejava mais nada além de sua amizade e agora, que o tinha perdido de vez, eu o queria somente para mim.

Ele começou um romance perfeito, acabamos nos afastando. Nossa amizade completava cinco anos. Mudei de cidade e comecei a cursar Letras. Ele também deixou a nossa pequena cidade, o seu namoro terminou, não sei se ele fez faculdade, não sei se encontrou novos amores, não sei se ainda pensa em mim. Será que sente a mesma nostalgia que eu? Hoje sou professora em uma universidade e já escrevi dois livros. Espero que ele tenha lido, também espero um dia reencontrar o meu grande amigo e poder dizer a ele que ele foi o meu verdadeiro e único amor.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Tarde enegrecida

Um segredo perdido ao vento, meu amor escondido
Entre a lua e as estrelas: o seu coração singelo
Vejo o brilho dos seus olhos verdes, azuis e castanhos
Nas águas frias do riacho, através das nuvens crepusculares

Sua voz solta na imensidão, incompreendida
Imagem singular ao inverso do paraíso, você se foi
Encontrei sinceridade nos seus beijos vulcânicos
A falsa magia me entorpeceu, acreditei

Uma partida infinita, sem adeus
Sua face pálida, confusa entre a neve
Nenhum sabor, cheiro ou dor
Frio, tarde enegrecida, fim amargo

O passado corrompido entre flores e espinhos
Lágrimas azuis, roxas e amarelas, espaço imenso
Voe ao longe, brisa sem destino, não volte
O afeto se acabou, o silêncio permanece

sábado, 24 de abril de 2010

Vienna

Depois de uma briga, ele saiu. Ela ficou sentada, chorando, na cama. Ele entrou no carro, ligou o som e começou a tocar Vienna. Seria o fim de um relacionamento conturbado e repleto de discussões? O que eles precisavam falar, se calou. O que ela queria ouvir, ele não disse.

Ela levantou, foi até a janela, o carro ainda estava lá. Fechou a cortina, foi ao banheiro, lavou o rosto, com água gelada, olhou no espelho, viu sua face pálida com os olhos vermelhos e as gotas das lágrimas derramadas se misturando com as gotas de água. Chorou mais. Doía muito, e só ela sabia a dor de todas aquelas brigas, a dor do abandono, a dor das palavras ditas e do medo. Medo de perdê-lo por mais uma vez, porque, a cada nova briga, ela sentia que um pedaço de suas almas se desunia.

Ele ligou o carro, enquanto ouvia a voz de Isaac Slade, e percorria as ruas escuras daquela noite fria, pensava nela, em tudo o que tinham vivido juntos, pensou no que disse. Ainda via os olhos dela cheios de lágrimas, escutava a sua doce e delicada voz pedindo para que ele parasse, pois não aguentava mais. Percebeu, então, que, naquele momento, a havia perdido para sempre. Nunca em uma briga ela tinha pedido para ele parar, nem mesmo havia chorado em sua frente.

Ela estava sentada no sofá, na televisão assistia a algum filme estapafúrdio com atores excêntricos e desconhecidos, pensava nele e em como ele era grotesco. Como poderia ela ter sofrido tanto todo esse tempo?
O amor, que pensava existir, não existia. Era costume. Muitas vezes, quando se convive muito tempo com certa pessoa, pode acabar confundindo “amar” com “acostumar”. Ele tinha sido seu primeiro namorado. Quatro anos de desentendimentos, palavras rudes e por poucas vezes o amor que ela buscava, que ela merecia.

Ele telefonou, ela atendeu. Silêncio por alguns instantes...
- Você nunca atende tão rápido – ele disse.
- Hoje é diferente – ela respondeu.
- Não vai mais ser como antes, não é? – ele continuou.
- Não sei se você me ama, já não sei mais se existe amor entre nós, mas tenho certeza que eu não o amo. Acabou e não insista – ela desligou. Não havia mais lágrimas para derramar. Sorriu.

Pela primeira vez, ele chorou.

“Talvez em cinco ou dez anos nós nos encontremos novamente. Quando a coisa toda estiver certa. Talvez então a necessidade de honestidade não seja temida como um amigo ou um inimigo. Esta é a distância e esta é a face do meu jogo.”

Nesta noite, Vienna era toda para ela.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um cappuccino quente, por favor!

Sinto o vento gelado arranhar a minha face, cortar os meus lábios e rasgar a minha alma. Permaneço sentada. O banco está gelado, a praça vazia, uma tarde de sábado com o céu prata acinzentado, inverno rigoroso. Sinto-me só, meus amigos foram embora, ainda não encontrei o amor - ou ele não me encontrou? - Amor. Pequeno detalhe que faz uma enorme falta. Levanto, caminho em direção à igreja, não me recordo qual foi a última vez que lá entrei. Volto a andar, sem rumo, sentindo os primeiros pingos da chuva caírem ao chão. Entro em um Café, há duas moças no balcão, um senhor de terno azul, lendo algum jornal da cidade, e escuto uma música tocar no volume mínimo... "Hold me tight". Na última mesa, um rapaz, de óculos, toma seu café, suavemente desce a xícara até o pires e coloca mais açúcar. Sento-me em uma mesa antes da sua, ele me olha por um pequeno instante e continua a adoçar o café. Uma, das moças do balcão, vem até mim e pergunta o que desejo. Peço um cappuccino. Não consigo tirar os olhos daquele rapaz, cuido todos os seus movimentos, a maneira com que ele mexe o café com a colher, o modo como morde os lábios após tomar um gole. Ele me olha, disfarço, ele sorri - quase morro - sorrio timidamente. Tenho a mania de tentar entender as pessoas, mas nesse momento não consigo entender-me muito bem. A moça traz o meu cappuccino, agradeço. Um cappuccino quente, em um dia de frio, é capaz de aquecer um coração gelado... Acredite. O rapaz levanta, está usando uma camiseta branca, escrito “Oasis”, em preto, ele é magro; pega o seu casaco, que está sobre a outra cadeira, veste-o, tira uma touca do bolso e a coloca. Olha para mim, se vira e vai ao banheiro. Parece que nascemos um para o outro, fico imaginando nós dois de mãos dadas indo ao cinema... Estranho, não sei nem ao menos o seu nome e já vejo um futuro entre nós. Ele volta, eu estremeço, passa ao meu lado e deixa um bilhete cair lentamente sobre minha mesa. Não tenho coragem de ler. Fico parada feito uma tola, olhando um retrato do John e do Ringo, abraçados, que está na parede. Olho para fora, através da vitrine, e vejo-o atravessar a rua. Leio o seu bilhete: “Oi, meu nome é Max, sei que o seu é Giovanna, sei, também, que é estudante de Direito, pois estudamos na mesma universidade, porém faço Música. Venho todos os sábados aqui, no próximo, se quiser me acompanhar, ficaria mais tranquilo, porque se, caso, não aceitar meu convite, morrerei de vergonha e terei que mudar de cidade.” Levanto e pago o meu adorável cappuccino, que conseguiu a façanha de esquentar meu peito e me trazer uma pequena alegria de viver. Agradeço sorrindo, e até sábado à tarde.