segunda-feira, 19 de abril de 2021

cata-vento

se no outro hemisfério o sentimento

é a fronteira da espera

talvez neste ele seja forasteiro de

alguma nova era

 

então é melhor deixar morrer no mar

a âncora  

e percorrer todo caminho como

nômade  

 

até as mãos não terem mais dedos

a contar tempo

e os braços irem contra a correnteza

como cata-vento

sábado, 15 de agosto de 2020

confissão

 não cabe em mim

                        a saudade

de cedo ver o sol

                        do campo

confesso em parte

                        a verdade

de não mais sofrer

                        um tanto


não

                        cabe agora

o vazio


esquecido há muito

tempo              aqui

e deixado de lado e


em vão


seria te ligar à noite

falar       e       ouvir

depois    e    sozinha

             morrer


... 


                        e morrer

                        por nada.

domingo, 17 de maio de 2020

vc.

talvez eu devesse deixar de te escrever
e economizar a bateria de meu celular
guardar para o futuro: o tempo e a energia
e aprender a esperar sem medo de morrer

no fundo eu admiro essa capacidade de espera
a se esconder tranquilamente dentro de vc.
mas percebo um grande esforço vindo
diretamente daí até aqui: eu sinto e morro

mas continuo a te escrever porque não há
escapatória: da pandemia e de vc.

meus dedos ansiosos digitam letras soltas
e esperam pelo toque de sua resposta
surgindo em meu telefone como se fosse vc.
a entrar subitamente dentro de mim

drummond poderia me dizer que esta
quarentena está a botar toda gente comovida
quem sabe seja essa a verdade
mas hoje eu a senti e a sentindo eu morri

pensei em toda gente pelo mundo sem saber
como sair e que aos poucos se foram muitos
e ainda há os que andam por aí e os sensatos
a enlouquecer no chão da sala de casa

afinal
no final não vamos todos morrer?
a verdade é uma

lembro-me muito dos que aqui estiveram
comigo e em mim e eu
descobri que posso parecer equilibrada
como vc. – que também nasceu em uma
quarta-feira (quem nasce nas quartas tem
cara de sério? vc. sim ao menos para mim)

é claro que pensei pesquisei procurei por vc.
há centenas de pessoas caminhando por aí...
como se nada fosse algo relevante a se dizer
falam pouco e andam muito com a certeza
sob as mãos e eu me perdi no meio delas
sem notar que entre elas não há uma como
vc.

segunda-feira, 2 de março de 2020

primeiro sobre evaristo

fui ao supermercado mais cedo do que
normalmente costumo ir e talvez essa tenha
sido a primeira vitória do mês ou deste ano
eu comprei poucas coisas e uma garrafa d’água
que derrubei na metade do caminho do lado
de uma árvore que fica na esquina da minha casa
desperdicei cinquenta por cento daquele líquido
que eu poderia ter tomado mais tarde ou de manhã
antes de ingerir um comprimido de ibuprofeno
e depois de engolir – que é para não ficar engasgada
(mais do que já tenho estado – engasgada) – a fim de
curar minha garganta que segue meio dolorida
desde a semana passada (na verdade há uns três
ou quatro dias) depois de ter falado um monte
de bobagem – que para mim até faz sentido:
eu chorei quando meu gato se deitou ao meu lado
e me deixou acariciar sua barriga sem temor
em um ato de confiança que jamais havia visto
antes em toda a minha vida e depois talvez também
é que eu não confio e nunca vi alguém confiar assim
em mim de volta e de um jeito tão cheio de amor

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

escrita

espero as curtas cartas
de canetas esferográficas
ou ao menos mensagens
de ambientes cibernéticos

frases
textos
versos

algo que se mostre adverso
ao inverso do reverso
do que poderia ter sido:
um verso

mas não foi

não espero essas coisas que a gente
somente diz
porque só dizer não é o bastante

eu quero ler o giz
riscar a palavra do seu nome
junto à letra que forma
a forma do meu

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

não neva mas chove

é quase novembro e a chuva
não para
as calçadas parecem espelhos
de água
e as janelas dos prédios permanecem
fechadas


ontem enquanto andávamos pelo bairro
depois do cinema
meus calçados ficaram completamente
encharcados
que até pensei em jogar fora minhas meias


(aquelas que você acha engraçadas
legal que as comprei um pouco antes de te conhecer)


pelo menos a chuva que molhou os meus pés
te manteve em pé após o plantão e é lógico que o
filme valeu toda água e risada da noite de ontem
ao menos você não teve que usar nosso tempo
assistindo ao documentário sobre o alasca

(espero que este vício meu em breve vire seu)

é notório que documentários me agradam
e que pessoas com medo de ursos me matam de rir


fora isso
        e ao frio em demasia
é bom te ter como companhia às cinco e meia
deste dia

domingo, 18 de agosto de 2019

jazz e cozinha

sempre gostei de ouvir jazz enquanto
cozinho cogumelos com café coado
e bebo vinho de uva pinot noir porque
harmoniza delicadamente com o prato
nesses momentos percebo na música
uma leveza diferente daquela das taças
que se enchem sozinhas durante o jantar
e a gente se perde entre baker e monk
ignorando o tic-tac do tempo que para
e redescobrindo a maturidade do jazz
talvez por isso combine tanto comigo
pois sempre tive uma década a mais
nos pretextos e na idade e até no amar
porém não importa de que ano veio
se há no trompete e no piano e no sax
uma vida inteira de sentidos a toda
essa gente que enche a cozinha com
vinho comida jazz poesia
e um pouco de amor