segunda-feira, 30 de setembro de 2024

teu peito na terra tem mais raiz do que um umbu

teu peito na terra tem mais raiz que uma grande árvore

maior e profundo parecendo até um solitário umbu

coloca-me a arder na sombra de folhas em dia de sol

e tento não me mover com medo de quebrar os galhos

frágeis de umbu enquanto sem sono e com muito receio

penso que essa madeira não serviria para nos fazer casa

mas o tronco é tão largo e as raízes por cima da terra

parecem prometer que todo esse descampado poderia

ser inteiramente nosso lar como se tropeiros fossemos

daqueles que sozinhos descansam à sombra do umbu

então por que não fazer desse pampa um pouco de casa

criar paredes e teto e pendurar quadros e espelhos

em teu peito que na terra tem mais raiz que uma árvore

e eu nem sei se tu já sabes ou se poderia um dia perceber

que essas raízes por cima do verde são todas tuas

e a casa que criei com as madeiras frágeis já tem chão

então mesmo que partisse deixaria porta e janela e coração

abertos mas eu juro que não poderia sair sem falar o quanto

adorei estar e ser por aqui e é verdade que a árvore e a casa

e as coisas e a gente poderiam valer algo e eu seria capaz de dizer

que a gente e as coisas e a casa até mesmo combinariam melhor

se não fossem os galhos quebradiços e cheios de certeza

pensando serem melhores que todas essas raízes

que da terra fogem e sobem por cima do verde

que do teu peito fogem e sobem por cima de mim

domingo, 29 de janeiro de 2023

tempo no pampa

da última vez em que cruzei o pampa

o peso do verão derrubava cercas

e matava a gente de sede

 

além das coxilhas o gado corria

no solo arenoso

campanha adentro debaixo do sol

 

o tempo parecia andar para trás

como se a menina da manhã

à noite estivesse dentro da mãe

 

mas o velho do pampa 

há uma vida parado

sozinho dizia que não

domingo, 6 de novembro de 2022

espero que um dia você seja madeira maciça ou nome de praça

a casa parecia cheia pela primeira vez:

os gatos, a york e os livros

na estante de madeira que comprei de

um marceneiro do interior das missões

 

do outro lado do quarteirão havia a

antiga residência do érico v.

nela luís f. v. descansava e talvez ainda

escrevesse notas curtas em um computador

 

érico, o marceneiro e eu:

todos em êxodo rural – das missões à capital

depois da terra vermelha, o lago marrom

(distante por trás de prédios cinzas) reluziu

 

porto alegre nos fez melhor

e cada um viveu seu amor

domingo, 24 de abril de 2022

trinta do nove

 de 1992 até aqui

 

não poderia ter a certeza de como seria a vida

e de todas as vezes que eu fugiria

talvez não seja um problema ser só

e saber socorrer quem pensa que tempo é descanso

 

quantos meses se perdem

em um ano?

 

 – tanta gente parada

a morrer –

 

então corro tão rápido

e por quê?

 

se as dores que ficam são minhas

e os amores que passam também

já não sei se o andar é tranquilo

ou se deus não existe outra vez

 

tenho deixado a fé para depois

(e os pirrônicos esquecidos ao lado)

são dias e noites de amor e de guerra

leio e releio e escrevo

 

os gatos por dentro e por fora

 

de 2022 até o dia em que nasci

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

beach baby (aquela música de quando entramos no mar)

recentemente pensei em ti

"beach baby" e kombucha de hibisco

meu mar aberto e tuas mãos molhadas

tranquilamente me vi aqui

comprando novos livros velhos

no sebo do centro — que te mostrei

talvez os leia no próximo ano e

quem sabe te veja também.


praça estado de israel, 30 de dezembro de 2021.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

cata-vento

se no outro hemisfério o sentimento

é a fronteira da espera

talvez neste ele seja forasteiro de

alguma nova era

 

então é melhor deixar morrer no mar

a âncora  

e percorrer todo caminho como

nômade  

 

até as mãos não terem mais dedos

a contar tempo

e os braços irem contra a correnteza

como cata-vento

sábado, 15 de agosto de 2020

confissão

 não cabe em mim

                        a saudade

de cedo ver o sol

                        do campo

confesso em parte

                        a verdade

de não mais sofrer

                        um tanto


não

                        cabe agora

o vazio


esquecido há muito

tempo              aqui

e deixado de lado e


em vão


seria te ligar à noite

falar       e       ouvir

depois    e    sozinha

             morrer


... 


                        e morrer

                        por nada.