segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

eu desarmaria o amor a vida toda por você

dessas coisas que morrem nos inícios de ano

desfalecem as inércias e renascem as urgências

passam os pequenos medos e se agigantam as ideias

aquelas de “quem poderemos ser” e “aonde vamos chegar”

acabam os sonos da tarde e os receios de dormir no mar

desejos antigos parecem recém concebidos e surgem maiores

amplos como maré de sizígia em tempo de lua nova ou cheia

e tudo fluido marcando o tanto de vida que ainda contamos de ter

mas desses pensamentos que em um susto crescem por agora

por que não reparar na ideia de “quem deixaremos de ser”

ou naquela outra de “até quando poderemos aguentar”

se há muito fazemos o mesmo como se novo fosse

e como se não estivéssemos a recontar

 

às vezes o certo é sentir e seguir

em outras devemos parar e pensar

já que novamente estamos em janeiro

 

e dessas coisas que morrem nos inícios de ano

desfalecem as inércias e renascem as urgências

que agora pela primeira vez já não são as mesmas

são novas como tudo isso que há um ano mora inteiro em mim

desde a influência desse amor que por sorte recebi

a ponto de ouvir “eu sentia que a liz estava conseguindo

te fazer viver mais” e “ela conseguia te desligar do trabalho”

e é sobre essas coisas que estou a escrever

dessas que morrem nos inícios de ano

quando desfalecem inércias e renascem urgências

diferentes daquelas de outrora e mais cheias de si

pulsando segundo a segundo e próprias de sentimento

distantes de corporação e mais próximas da vida

dessa que os poetas escrevem e nos fazem crer

que nada valeria mais do que o amor

já que amar desarma a luta

 

mas o que fazer quando as lutas se dão de dentro para fora?

não sabia responder

até encontrar um pouco de vida no caminho

30°01'53.4"S 51°12'34.3"W

 

(eu voltaria às mesmas coordenadas para sempre

e desarmaria o amor a vida toda por você)

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

primeiro para liz

sonhei tarde contigo enquanto tentava dormir

lembrei-me da noite que havia passado

lentamente por nós

logo escureceria novamente

e outro dia nos iluminaria depois

os gatos correriam para fora do quarto

e atrás deles teus pés seguiriam

até o cheiro do leite molhando o café  

que tu adoçarias com essas mãos

– as mesmas que me enchem de amor –

e entardeceria do nada de novo

no escuro repetiríamos as frases de sempre

tu dirias o quanto… (não preciso escrever aqui)

e eu faria o mesmo por ti

porque a nossa vida tem sido assim

e isso preenche e me deixa completa

e penso: que encontro foi esse?

tão bom te ter e te ver todos os dias (muitos deles à noite)

ainda que às vezes seja apenas para aqui estarmos

lado a lado com as luzes apagadas

dormindo outra vez e sonhando de olhos abertos

quem sabe através das noites (e por toda uma vida também)

sábado, 9 de novembro de 2024

the cat inside

Em The Cat Inside – um livro que emprestei há alguns anos e até hoje não recuperei –, William Burroughs escreveu que cães começaram como sentinelas e que gatos, por sua vez, como companheiros psíquicos (e não como meros protetores de grãos dos ratos no Egito antigo). É bem possível que isso seja uma verdade, pois penso que os gatos nunca se afastaram dessa função. Burroughs ainda relatou que os felinos não oferecem serviços. Pragmaticamente, eles se oferecem. Nesse ritual milenar, Evaristo e Galeano – os meus gatos – exoticamente passam pelos dias fazendo o que querem (ou o que podem) e, quem sabe conscientemente, sendo parceiros mentais/amigos espirituais. Diferentemente do que dizem, assemelham-se muito a humanos e, parafraseando William Burroughs, talvez nós sejamos os gatos por dentro e – para nós – realmente exista apenas um lugar.

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

teu peito na terra tem mais raiz do que um umbu

teu peito na terra tem mais raiz que uma grande árvore

maior e profundo parecendo até um solitário umbu

coloca-me a arder na sombra de folhas em dia de sol

e tento não me mover com medo de quebrar os galhos

frágeis de umbu enquanto sem sono e com muito receio

penso que essa madeira não serviria para nos fazer casa

mas o tronco é tão largo e as raízes por cima da terra

parecem prometer que todo esse descampado poderia

ser inteiramente nosso lar como se tropeiros fossemos

daqueles que sozinhos descansam à sombra do umbu

então por que não fazer desse pampa um pouco de casa

criar paredes e teto e pendurar quadros e espelhos

em teu peito que na terra tem mais raiz que uma árvore

e eu nem sei se tu já sabes ou se poderia um dia perceber

que essas raízes por cima do verde são todas tuas

e a casa que criei com as madeiras frágeis já tem chão

então mesmo que partisse deixaria porta e janela e coração

abertos mas eu juro que não poderia sair sem falar o quanto

adorei estar e ser por aqui e é verdade que a árvore e a casa

e as coisas e a gente poderiam valer algo e eu seria capaz de dizer

que a gente e as coisas e a casa até mesmo combinariam melhor

se não fossem os galhos quebradiços e cheios de certeza

pensando serem melhores que todas essas raízes

que da terra fogem e sobem por cima do verde

que do teu peito fogem e sobem por cima de mim

domingo, 29 de janeiro de 2023

tempo no pampa

da última vez em que cruzei o pampa

o peso do verão derrubava cercas

e matava a gente de sede

 

além das coxilhas o gado corria

no solo arenoso

campanha adentro debaixo do sol

 

o tempo parecia andar para trás

como se a menina da manhã

à noite estivesse dentro da mãe

 

mas o velho do pampa 

há uma vida parado

sozinho dizia que não

domingo, 6 de novembro de 2022

espero que um dia você seja madeira maciça ou nome de praça

a casa parecia cheia pela primeira vez:

os gatos, a york e os livros

na estante de madeira que comprei de

um marceneiro do interior das missões

 

do outro lado do quarteirão havia a

antiga residência do érico v.

nela luís f. v. descansava e talvez ainda

escrevesse notas curtas em um computador

 

érico, o marceneiro e eu:

todos em êxodo rural – das missões à capital

depois da terra vermelha, o lago marrom

(distante por trás de prédios cinzas) reluziu

 

porto alegre nos fez melhor

e cada um viveu seu amor

domingo, 24 de abril de 2022

trinta do nove

 de 1992 até aqui

 

não poderia ter a certeza de como seria a vida

e de todas as vezes que eu fugiria

talvez não seja um problema ser só

e saber socorrer quem pensa que tempo é descanso

 

quantos meses se perdem

em um ano?

 

 – tanta gente parada

a morrer –

 

então corro tão rápido

e por quê?

 

se as dores que ficam são minhas

e os amores que passam também

já não sei se o andar é tranquilo

ou se deus não existe outra vez

 

tenho deixado a fé para depois

(e os pirrônicos esquecidos ao lado)

são dias e noites de amor e de guerra

leio e releio e escrevo

 

os gatos por dentro e por fora

 

de 2022 até o dia em que nasci