J.
disse precisar de um espaço subterrâneo. H. precisava de mais tempo. J. desceu
os degraus até o sul. H. comprou duas caixas de medicamentos. Nos primeiros
dias de outubro, as cores não surgiram como de costume no hemisfério sul. Nos
dias seguintes, a cidade dormia em preto e branco. J. ainda estava no porão. H.
quebrou todos os relógios que havia em casa. As calçadas do bairro eram cinzas.
As árvores estavam secas. Ninguém compareceu ao funeral do prefeito. Alguns anos
depois, sem marcadores de tempo, J. subiu os mesmos degraus, que o levaram ao
sul, e saiu do recinto familiar sem dirigir suas pupilas a H. Ainda era
outubro. Ainda não havia cor. H., que estava mergulhado em água com analgésico, se
perguntava o horário. J. sentou-se em um banco cinza da praça negra. H. contava
as facas e os garfos na cozinha. Alguns anos se passaram e não contaram o
tempo. Outubro ainda doía. H. já tinha um filho. J. respondia por tentativa de homicídio.
Numa tarde cinza, a cidade sem cor se viu coberta por um céu anil: J. foi
absolvido. H. não precisava de remédios. D. completou onze meses de vida. Era
setembro.
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